22 de nov de 2011

Apertem os cintos, o piloto sumiu - História real

  • Piloto arremessado para fora da cabine do avião causa uma cena inacreditável

Em 9 de junho de 1990, o encarregado de manutenção da aeronave BAC 1-11 da Britsh Airways equivocou-se no diâmetro dos parafusos ao substituir o para-brisas da cabine. No dia seguinte, quando o vôo 5390 de Birmingham a Málaga se encontrava a 5 mil metros de altura, a diferença de pressão fez o para-brisas saltar pelos ares, succionando o piloto que, semi-consciente, ficou enganchado sobre a cabine no exterior do avião.


As últimas palavras do capitão Tim Lancaster a bordo do One-Elevem de 43 toneladas com 81 passageiros a bordo e 6 tripulantes, não permitiam pressagiar um dos acidentes mais estranhos e rocambolescos da história da aviação civil.

- "... é com prazer que anuncio que o clima é ensolarado e seco em Málaga e estaremos em nosso destino em aproximadamente 120 minutos..."


Poucos minutos depois, quando o auxiliar de vôo Nigel Ogden se dispunha a servir um chá aos pilotos, o para-brisas esquerdo da cabine arrebentou e imediatamente a atmosfera interior ficou congelada com uma espessa neblina branca que impedia a visão. Quando a nuvem dissipou, Nigel Ogden observou que o capitão já não se encontrava em seu assento, e só viu seus sapatos presos na janela. O corpo de Tim permanecia pressionado contra o exterior da cabine pela pressão das rajadas de vento resultante da velocidade do avião. Ao ser expulso, Tim empurrou a alavanca de comandos para baixo e desligou o piloto automático provocando o descontrole da aeronave. A reação imediata de Nigel foi segurar os pés do piloto e não abandonou esta posição até o fim do incidente.

Um oficial inspeciona o buraco no para-brisas do avião sinistrado.

Enquanto isso o co-piloto Alistair Atcheson tentava devolver a estabilidade a aeronave. O risco de colisão com outro avião era alto, já que se encontravam num dos espaços aéreos com mais tráfego no mundo: Heathrow.

Disse o "May-Day" com dificuldades pois era impossível escutar o rádio com um vento de mais de 500 quilômetros por hora lhe açoitando a cara. A nave então perdia altitude a 30 metros por segundo.

Um turbilhão de objetos voavam para o funil de pressão onde estava o piloto enganchado. Uma garrafa de oxigênio que estava presa na parede passou como um aríete a poucos centímetros da cabeça do auxiliar Nigel. A cabine converteu-se num redemoinho de papéis e cartas de navegação que acabaram enfileirando para o orifício de saída.

Outro auxiliar, John Heward, preparou os passageiros para uma aterrissagem de emergência e rapidamente se dirigiu a cabine para ajudar. Nigel sentiu que o vento estava prestes a levá-lo para o lado do capitão, ou seja, também para fora do avião e começou a gritar. John foi ao seu auxílio agarrando sua cintura com um braço e com o outro o assento do auxiliar.

O co-piloto baixou a aeronave mais de 3 mil metros em 95 segundos para buscar oxigênio para os passageiros. Ali reduziu a velocidade a 300 quilômetros por hora e equilibrou o aparelho. O problema foi que a pressão sobre o corpo do capitão diminuiu e seu corpo começou a deslizar perigosamente para a lado do exterior da cabine até que seu rosto apareceu na janela lateral:

"Tudo o que recordo é como o Tim agitava os braços... parecia que mediam mais de um metro... parecia um boneco de vento, nunca esquecerei. Seus olhos abertos esbugalhados. O rosto colado contra a janela lateral sem pestanejar me fizeram pensar que ele já estava morto", diz Nigel Ogden.

Ainda que todos intuíam que o capitão não tinha sobrevivido, não pensaram na possibilidade de soltá-lo, simplesmente pelo perigo que isso supunha. Pela posição na qual se encontrava e a velocidade acrescentada, o corpo de Tim podia introduzir-se num dos motores traseiros.

Os braços de Nigel e John estavam meio congelados e começavam a fraquejar. Simon Roger, outro auxiliar de vôo que estava na cabine de passageiros, teve que ir completar a corrente para segurar o capitão. Três homens, um atrás do outro, lutavam para evitar o deslizamento do pesado corpo de Tim Lancaster contra o vazio.

O co-piloto conseguiu então estabelecer comunicação por rádio e aproximou o aparelho do aeroporto de Southampton. Tudo isso de cor, pois todos os manuais e cartas de navegação tinham voado para fora. Pediu ao controle uma pista de 2.500 metros já que estava preocupado pela elevado carga de combustível. Disseram-lhe que somente a de 1800 metros estava disponível.

Membros da tripulação no hospital junto ao capitão Tim Lancaster.

Sob um silêncio sepulcral a aeronave pousou, não sem dificuldades, no aeroporto de Southampton às 7:55 da manhã de 20 de junho de 1990. Os passageiros desembarcaram comovidos, mas ilesos e o capitão foi levado ao hospital da cidade com uma fratura de braço, outra no pulso, hematomas, hipotermia e princípios de congelamento das extremidades.

Em 1992, a investigação sobre o acidente foi concluída e estabeleceu que a pressão trabalhista à que estava submetido o mecânico encarregado da substituição do para-brisas fez com que não procedesse de forma correta na escolha dos parafusos. Os que foram colocados tinham diâmetro ligeiramente menor.

Menos de 6 meses depois, após recuperar-se das fraturas, o capitão Tim Lancaster já estava voando de novo. O co-piloto Alistair Atcheson (esse é o cara) foi galardoado com a cobiçada medalha ao mérito aéreo e seus colegas receberam inumeráveis homenagens e prêmios.




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