23 de jan de 2012

Os animais também se embebedam

  • Festa da marula na floresta, os animais numa embriagues homérica

Não sei bem onde ouvi alguém argumentar que a natureza é sábia, e que, portanto, drogar-se é coisa de humanos já que nunca ninguém veria um animal se drogando. 

Bem, a verdade é que usar a natureza como referência moral ou inclusive lógica é um belo erro recorrente, além de quê os animais fazem muitas coisas que fazemos e em muitos casos somos nós a fazer;imitar alguma coisa que presenciamos sua prática pelos animais.

Por conseguinte, ainda que soe muito contrário, a propensão a embriagar-se com substâncias psicoativas não é exclusiva dos seres humanos ou de rompedores de normas sociais como Timothy Leary, Ken Kessey e demais criaturas do movimento contracultural dos anos 60 nos EUA. Por exemplo, observaram-se aves, elefantes e macacos rastreando o solo loucos por encontrar frutas e bagas que depois de um processo de fermentação natural, começam a produzir álcool.







O neurocientista David J. Linden contribui outros exemplos surpreendentes de animais que buscam por este vício em seu livro Compass of Pleasure. Por exemplo, ele conta que nas savanas sul africanas é possivel ver diversos animais em estado total de embriaguez por consumir em excesso -vídeo acima- a fruta da marula ou canhoeiro (Sclerocarya birrea).

No Gabão, na região equatorial da África Ocidental, observaram javalis, elefantes, porcos-espinhos e gorilas comendo iboga (Tabernanthe iboga), uma planta embriagante e alucinógena. Inclusive há provas de que os elefantes jovens aprendem a comer iboga observando os adultos de seu grupo social. Nas terras altas da Etiópia, as cabras exageram na ingestão das bagas de café silvestre para "tomar um pico" de cafeína.

Ainda que seja difícil saber se o animal simplesmente desfruta comendo a fruta do solo e suporta os efeitos embriagantes para poder fazê-lo ou se em realidade busca só os efeitos embriagantes, há muitas provas que apontam que o animal almeja o último. Uma destas provas é que normalmente só consomem uma quantidade pequena da planta, de maneira que enquanto seu efeito nutritivo resulta quase depreciável, seu efeito psicoativo é realmente forte.

Talvez o exemplo mais espetacular de embriaguez animal sem relação com a alimentação seja o da rena doméstico. Os chukchis da Sibéria, que pastoreiam rebanhos de renas, consomem como ritual sacramentado o agário-das-moscas (Amanita muscaria), conhecido cogumelo alucinógeno vermelho com pintas brancas. E o mesmo fazem suas renas, que quando encontram alguns destes fungos, engolem e começam a andar cambaleando de um lado para o outro em um estado de total desorientação, apartando-se do rebanho e vagando durante horas enquanto sacodem a cabeça sem cessar.

O ingrediente ativo da amanita é o ácido ibotênico, uma de cujas partes se converte, depois de ingerido, em outro composto, o chamado muscimol, este sim responsável pelas alucinações. O interessante do ácido ibotênico é que o corpo só metaboliza uma quantidade muito pequena para produzir muscimol e o resto (cerca do 80%) é eliminado pela urina. As renas então aprenderam que lamber urina carregada de ácido ibotênico produz um "barato" bem mais forte que aquele que se consegue comendo o cogumelo diretamente.




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