2 de out de 2014

O último post de uma blogueira com câncer

Charlotte Kitley era uma blogueira do Huffington Post, em sua versão britânica, há dois anos. Infelizmente deixou-nos no passado 16 de setembro devido a um câncer de colo à idade de 36 anos. 

Ela escreveu um post final que queria compartilhar com todos os seus leitores.

É algo tocante e achei importante para os leitores da MIB, afinal nada melhor do que a gente ter consciência que pode acontecer com qualquer um e curtir cada momento da nossa existência na Terra é a máxima da vida.

Confira a carta abaixo:

"Sempre fui boa planejadora. Gosto das listas, planilhas e anotações do que tenho a fazer e os objetivos. Sou muito boa empreendendo, mas, sinceramente, também me aborreço com facilidade e perco o interesse quando a emoção inicial passa.


Não me dei ao luxo de me aborrecer com o câncer. Não é algo que você possa simplesmente desistir se você não quiser fazê-lo naquele dia. Não existe um interruptor que você possa optar por desligar de um dia para outro. Ao menos, não para mim. Desde meu primeiro dia como paciente de câncer tenho assistido a todos os testes, exames e consultas. Eu tentei todos os tratamentos possíveis, desde as terapias médicas habituais até o requeijão com azeite, a acupuntura e o suco de couve. O câncer converteu-se em nossa vida. Férias, cortes de cabelo e aulas de helicóptero foram todos planejados em função de fins de semana bons ou maus pela quimioterapia. Danny e Lu, inocentes e inconscientes espectadores, passaram sua infância protegidos, mas também ditados por meus diversos regimes. Isto é tudo que eles conheceram, mas espero que ainda consigam ser crianças tão boas, satisfeitas e amadas.

A redoma de proteção que havia em torno deles, teve que ser retirada. Após meu aniversário, comecei a sentir-me muito indisposta. Fomos ao hospital que faz o acompanhamento da doença e infelizmente, ao fazer um novo exame, os resultados foram devastadores. Já não contávamos com um planejamento de mês a mês com um par de meses de presente no final. Deram-me apenas alguns dias de vida, com sorte um par de semanas. Eu não poderia nem ter saído do hospital, mas, de algum modo, juntei todas as minhas forças para voltar para casa para passar o pouco tempo que me restava com meus queridos filhos e marido.

Enquanto escrevo isto, estou sentada no sofá, relativamente sem dor, e ocupada com meus pequenos projetos: arranjando o enterro e vendendo meu carro para colocar o dinheiro na poupança das crianças. A cada manhã acordamos agradecidos porque posso abraçar e beijas meus bebês.

Quando você ler isto, eu já não estarei aqui. Rich estará tentando manter-se em pé, tentando compreender algum dia em algum momento que eu não voltarei a acordar a seu lado. Me verá em sonhos, mas com a brutal luz da manhã descobrirá que a cama está vazia. Verá as duas canecas do armário, mas se dará conta de que só tem que preparar um café. Lucy pedirá que alguém pegue a caixa de tic-tacs e prendedores, mas não terá ninguém para trançar seu cabelo. Danny terá perdido um de seus policiais Lego, mas ninguém saberá exatamente nem onde está nem onde achá-lo. Vocês verão a última atualização do blog, mas não terá nenhum post mais. Este é o último capítulo.

Deste modo, vou deixando um buraco injusto, cruel e sem sentido, não só em Halliford Road, senão em todas as casas, pensamentos e lembranças de outros seres queridos, amigos e famílias. Sinto muito. Me encantaria estar com vocês, rindo, experimentando um novo alimento delicioso, dizendo tolices das minhas. Tenho muita vida de viver, mas sei que não poderei. Quero estar presente com meus amigos e saber como vai as suas vidas, quero ver meus filhos crescerem, e quero me tornar velha e resmungona com Rich. Mas todas estas coisas fora negadas a mim.

Não obstante, esta chance não está sendo negada a vocês. De modo que, em minha ausência, faça o favor, por favor, desfrutem da vida. Agarrem-na com as duas mãos, juntem a com força, agitem-na e creiam nela a cada instante. Você literalmente não tem nenhuma idéia de como é abençoado por poder gritar com eles pela manhã, para que se apressem e escovem os dentes.

Abrace essa pessoa que você ama e se não puder abraçá-lo agora, encontre a alguém que o faça. Todo mundo merece amar e ser amado. Não se contente com menos. Encontre um trabalho que você goste, mas não se torne um escravo dele. Ao final, sua lápide nunca exibirá "Eu gostaria de ter trabalhado mais". Dance, ria e coma com seus amigos. As amizades verdadeiras, fortes e sinceras são uma benção absoluta e uma escolha que temos que fazer, não é como a lealdade que devemos mostrar por um vínculo sanguíneo. Escolha sabiamente seus amigos e então valorize-os com todo o amor que você pode reunir. Cerque-se de coisas belas. Na vida há muitas sombras e muita tristeza; busque um arco-íris e enquadre-o na sua vida. Há beleza em tudo. Às vezes você só tem que se esforçar um pouco mais para vê-la.

Isto é tudo da minha parte. Muito obrigado pelo amor e a simpatia que me mostraram com pequenos gestos nos últimos 36 anos. Desde as meninas que, com seis anos, me empurraram sobre um arbusto de urtigas, até os viúvos que na última semana me contaram o que suas mulheres fizeram para preparar seus filhos e todos os outros para a morte iminente. Eles, e todos vocês, que de alguma forma me ajudaram a ser a pessoa que eu fui.

Por favor, façam com que todo este amor por mim passe agora a Rich, a meus filhos, a minha família e a meus amigos íntimos. E quando você fechar suas cortinas hoje à noite, olhe para uma estrela, serei eu, olhando para baixo, tomando uma keep cooler e desfrutando de uma caixa de bombons muito caros.

Boa noite, adeus e que Deus abençoe vocês.

Charley xx




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