29 de abr de 2014

A Eko Atlantic, a cidade que é um “apartheid climático”

  • Esta cidade inteira está sendo construída para salvar outra da mudança climática

Em breve, a Nigéria vai superar a África do Sul e se tornar a maior economia da África, graças ao petróleo. No entanto, o país enfrenta muitos problemas comuns em nossa época de mudança climática: aumento do nível do mar, ressacas e inundações devastadoras. 

Agora, sua cidade costeira de Lagos – a segunda maior do continente – vai fazer de tudo para se proteger, tanto ambientalmente como financeiramente.

O objetivo: construir uma cidade inteiramente nova, do tamanho de Manhattan, entre Lagos e o oceano.

A Eko Atlantic é um projeto multibilionário que promete proteger contra a erosão marinha, “transformando terrenos perdidos para o mar em uma cidade costeira que será uma das maravilhas do século XXI”.


Ela também quer ser o catalisador econômico que elevará Lagos à categoria de uma megacidade global, tornando-se o “novo epicentro financeiro da África Ocidental até o ano 2020″.

Mas, no Guardian, Martin Lukacs diz que a Eko Atlantic é um “apartheid climático”, e construído por “capitalistas do desastre” – pessoas interessadas em ganhar dinheiro a partir de catástrofes.

Segundo ele, esses investidores estão usando a ameaça da mudança climática para construir basicamente um cidade fechada e financeiramente inacessível, que só vai “salvar” quem mora lá:

A Eko Atlantic é onde você pode começar a ver um possível futuro: uma visão de enclaves verdes e privatizados para os ultrarricos, cercados por favelas com falta de água ou eletricidade, onde pessoas disputam por recursos escassos e se abrigam das próximas inundações e tempestades.

Protegidos por guardas, armas e uma barreira intransponível – o preço dos imóveis – os ricos vão se proteger das marés crescentes de pobreza e do mar. Um mundo onde os ricos e poderosos exploram a crise ecológica global para ampliar e consolidar as desigualdades já extremas e se isolar de seus impactos – isto é apartheid climático.

A construtora já está terminando a ilha artificial na qual ficará a cidade, incluindo um paredão com cerca de quase 3 km apelidado de “Grande Muralha de Lagos“. É um dos maiores projetos de engenharia civil no mundo.

O site oficial da Eko Atlantic promete uma comunidade onde se pode caminhar, com torres de escritórios, parques e restaurantes ao ar livre. Há uma marina que lembra Miami Vice. A “espetacular avenida central… semelhante em tamanho à Champs-Élysées em Paris, ou à Quinta Avenida em Nova York” vai cruzá-la no centro. Haverá habitação para 250 mil moradores, e emprego para mais de 150 mil.

Não está claro, no entanto, quem exatamente serão esses moradores. Afinal, muitos cidadãos de Lagos – cerca de 70% da população – moram em locais como este:


Escola Flutuante de Makoko,
projetada pela NLE na favela Makoko, em Lagos
A favela Makoko, onde cerca de 100 mil pessoas moram em barcos e casas numa lagoa, fica a cerca de 1,5 km da Eko Atlantic. Parte desta favela e de outras comunidades semelhantes já foram demolidas ou forçadas a se mudar devido ao projeto. Alguns afirmam que a construção e dragagem da Eko Atlantic até mesmo intensificou as ondas do mar para esses bairros flutuantes.




Uma ilha-barreira provavelmente ajudaria a proteger Lagos de uma tempestade, mas essa ideia em particular – projetada para milionários e suas corporações – parece bem insensível para resolver as questões maiores em torno da mudança climática e da desigualdade em Lagos.

A Eko Atlantic promete ajudar a atrair mais atenção para esta região metropolitana, criando uma nova superpotência financeira. E isso provavelmente vai acontecer: a Eko Atlantic deve ser erguida ao longo da próxima década, com suas torres cheias de investidores para apostar na economia em crescimento, enquanto o resto de Lagos submerge lentamente ao redor. 









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