30 de jul de 2013

Fotografia post-mortem victoriana

  • Algumas fotografias são tão incríveis que nem dá para saber quem é o morto

Em 2010 fiz um post sobre o assunto que se chamava Álbum dos Mortos, quem quiser ver também é só conferir o link.

A morte, no universo ocidental que vivemos, está oculta dentro de caixas de madeira retangulares, ou sob lençóis brancos que cobrem o rosto dos corpos sem vida. É algo que pelo geral não vemos ou tentamos não ver. Mas na Inglaterra vitoriana, período que compreendeu a maior parte do século XIX, a morte estava presente de muitas maneiras particulares. 

Os rituais que a rodeavam e as convenções e regras em torno do luto eram muito específicas. A fotografia post-mortem desta época, feita para conservar na memória os rostos e corpos dos que deixavam este mundo, capturou uma essência quase inaudita (e estranhamente bela) de contemplar a morte.

Na era vitoriana, a expectativa de vida de um homem de classe média ou alta era de 44 anos; 57 em cada 100 crianças, que nasciam dentro da classe trabalhadora, faleciam antes de completar cinco anos. Os defuntos, os funerais e tudo o que rodeava a morte de uma pessoa era parte da vida diária de uma maneira que na atualidade já não é fácil conceber.


Assim, as cenas e as palavras ditas no leito de morte eram de grande importância; as famílias inteiras reuniam-se ao redor do moribundo para escutar suas últimas palavras e vê-lo respirar pela última vez. Existia, finalmente, uma obsessão quase fanática pela morte; via-se e vivia-se muito de perto. Inclusive, como se fosse uma espécie de relíquia, era comum fazer joias com cabelos de pessoas mortas. Neste mundo, o luto era um ritual com regras muito específicas.

A rainha Vitória, por exemplo, guardou luto de seu marido Alberto durante 40 anos e manteve o quarto de seu consorte como ele havia deixado antes de morrer. Seguindo a tradição real, uma mulher comum devia guardar luto durante dois anos e meio, pelo menos, e não podia socializar nos primeiros 28 meses. Devia utilizar vestidos de tecidos e cores específicas, ao ponto de que o tom de sua roupa podia indicar quantos anos estava viúva.

Este século também viu o nascimento e a popularização da fotografia. Com a instituição do daguerreotipo em 1839 -instrumento que reduzia as horas de exposição necessárias para fazer um retrato-, a fotografia se estendeu pelo mundo, se tornando mais barata do que mandar fazer um retrato pintado a mão.

Assim, a fixação vitoriana com a morte conheceu à jovem arte da fotografia, e os retratos de gente morta terminaram sendo, entre outras coisas, uma variante do Memento mori (do latim "Lembre-se de que você é mortal"), tipo de pensamento e simbolismo muito utilizado dentro da literatura, principalmente na literatura barroca.

Vistas cuidadosamente, as fotografias post-mortem desta época causam um temor essencial. Sua extravagância reside em que, pelo geral, eram retratos feitos em interiores, enfeitados com flores ou decorados com móveis, assim como nas fotografias comuns. Mas têm algo estranho... E esse algo está na expressão dos semblantes mortos fotografados como se estivessem vivos. Os bebês, por exemplo, eram retratados em seus berços, fazendo parecer que estavam dormindo; as crianças frequentemente apareciam rodeadas de seus brinquedos favoritos. Inclusive existem muitas fotos em grupo, e os membros vivos da família (os outros) aparecem rodeando o cadáver do defunto.

Basta observar detidamente o rosto e o olhar dos mortos nas fotografias -às vezes intervindas com pintura nos olhos, nas pálpebras ou com rubor nas bochechas- para sentir algo que oscila entre o mórbido, a curiosidade e o medo. Mas em uma segunda aproximação, as imagens post-mortem vitorianas têm uma estética própria, cuidada e especial. Há algo de belo nos mortos retratados e no esmero do que os retrata. Não podemos esquecer a extensa tradição gótica e a fascinação pelos fantasmas que sempre permeou a cultura inglesa, e isso seja talvez uma maneira de explicar a obsessão fetichista e a fixação que, sem dúvida, pode ser vista como inquietante e ao mesmo tempo bela.

Esta expressão artística reflete algumas das questões mais essenciais da natureza humana, como a necessidade de conservar na memória quem amamos, seus gestos, seus corpos, em uma tentativa de imortalizar graficamente a efemeridade de nossa passagem pelo mundo.

As mãos dos cadáveres, acomodadas suavemente em seus regaços, denotam um desejo de permanência em um mundo no qual nada permanece e são também uma maneira especialmente excêntrica e, vale a pena dizer de novo, bela de viver a morte e de mostrar aos olhos.
































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