10 de set de 2010

Persona




  • ENTREVISTA COM A BANDA BAIANA PERSONA S.A.

(Lucas Bertolucci e André Lissonger)
Persona é umas das melhores bandas de rock que já pude assistir em Salvador. Um som eletrizante que faz mexer com todas sua células. A banda conta com a presença do Baixista Jerry Marlon, os guitaristas Karl Franz Hummel (músico do Camisa de Vênus) , Gustavo Mullen (músico do Camisa de Vênus), o baterista André Ramos e o Vocalista André Lissonger.
Curta 4 músicas do Personaclique aqui.




1 - Lucas Bertolucci: Como surgiu a ideia desse nome?
André Lissonger - A idéia é um pouco velha. Foram os antigos que inventaram uma expressão para evocar a respeito de uma pessoa que é bem vinda em determinada comunidade. Um projeto meu mais antigo, teria este nome... mas ficou na gaveta. A banda tinha algumas opções, mas escolhemos "democraticamente" esse... com o tempo passando alguns integrantes se identificavam mais com a segunda parte do nome. Os Non Grata na banda... Bom, mas o negócio é que estamos mudando o nome, para evitar conflitos com bandas nacionais e internacionais que já o adotaram, infelizmente. Porém, o conceito que o nome trás... continua como conceito da banda.

2 - Lucas Bertolucci: Qual o estilo musical da Persona Nom Grata e quais as influências?
André Lissonger - A idéia de estilo não é agradável, porque é uma coisa muito classificatória, iluminista, portanto antiquada... inventada no século XIX. Mas sabemos que é natural que as pessoas procuram simplificar o mundo em "gavetinhas", no cérebro, em casa, no motel, etc... para ter uma segurança, mesmo que ilusória. Então, nesse sentido fazemos rock. Se quiserem entrar em mais categorias dentro do rock... fazemos algo híbrido entre o hard rock e o pós-punk rock.
As minhas influências são muitas. Muitas mesmo. E vão além da música e do rock. Passam pela arquitetura, urbanismo, webdesign, etc. Mas em termos de rock, para simplificar... acho que posso citar Led Zeppelin, Stones, David Bowie, Clash. Em outras "praias" gosto de clássico, triphop, soulmusic, reggae, etc... mas não chegam a influenciar tanto no processo de composição do PNG. Tenho ouvido atualmente bem pouca coisa: Iggy Pop, Placebo, Thin Lizzy, Janes Adction, Barão Vermelho, PIL e ZZTop. Acho que algumas das bandas citadas também são influencia de Karl e Gustavo, nossos gostos são um pouco parecidos... todos da banda, às vezes, assistimos e ouvimos algumas coisas juntos, etc. Interessante vocês não terem perguntado como se dá o processo de composição na PNG.


3 - Lucas Bertolucci: Sabendo que vocês fazem parte da história do Rock baiano, qual a trajetória dos integrantes da banda?
André Lissonger - Seria interessante todos falarem não é? Bom, sabendo também que temos integrantes que fazem parte da história do rock brasileiro, como a exemplo de Karl e Gustavo; esta trajetória é um tanto longa. Bem longa. Mas em síntese, a gente pode se lembrar, até porque vivi esta época, que os meninos do Camisa de Vênus fazem um cenário em uma Salvador muito provinciana, depois se deslocam para o Rio de Janeiro em um contexto de muita new wave, e depois ganham São Paulo e Porto Alegre... extinguido este processo, um átimo de tempo permitirá que Karl e Gustavo realizem alguns projetos paralelos, e só depois, em 2001, nos juntamos para começar a formatar o PNG. Nos casos de eu (Lissonger), André Ramos e Jerri Marlon... razoavelmente participamos de um cenário que é imediatamente posterior à ida do Camisa de Vênus ao RJ... Gonorréia antes (com o Jerri), e depois 14º andar, Utopia e Via Sacra, juntamente com outra dúzia de bandas (acho que não passavam de vinte bandas naquela época), procuram sustentam o vácuo deixado pelo Camisa em Salvador... até que veio o Plano Collor, a sistematização da mudança da mídia do LP para o CD, o início da desintegração da indústria fonográfica, e uma outra geração de bandas em SSA. Terminado este processo Jerri Marlon é que ficará sempre na ativa com muitos projetos, pois na banda, é quem se dedica inteiramente à música... enquanto eu e André seguimos com outros projetos, até 2001, quando montamos a PNG.

4 - Lucas Bertolucci: Nos anos 80 e 90 o Rock baiano estava em alta. Um movimento que se difundiu e ganhou o país como no caso da Banda CAMISA DE VÊNUS, que alguns de vocês participaram. Pensando nisso, como vocês vêem o Rock na Bahia atualmente?
André Lissonger - Os rock(s)!!! Não há um rock na Bahia, não existe rock baiano. Não existe uma unidade que poderíamos chamar de rock baiano, atualmente é claro... muito menos brasileiro. Isso é uma tendência mundial. Vivemos em um mundo pluralizado, fragmentado, estilhaçado, esquizofrênico... porra!!! Então... existem sim miríades, umas quatrocentas (ou até quase quinhentas) bandas de "rock(s)", pois são diversas as tendências, em Salvador e as outras cidades do estado. Não há um movimento, existe uma dinâmica heterogênea... a depender do gosto (e são milhares os gostos) uma banda sai do topo do profissionalismo para cair no limbo da chatice... e outra, que é uma merda musicalmente, pode vir a um "estrelato" de 300 pessoas uniformizadas vestindo preto e de corpo híbrido. Existem sim é uma cacetada de bandas fantásticas e de bandas horríveis. Não existe um rock, e sim rocks baianos... isso aqui é um caldeirão sujo e grosseiro de rocks com poucas bandas com preocupações sociais. Bandas que são idolatradas e tocam nos bares da modinha tem letras e até integrantes que lembram coisas como "e você está bem..."... "não meu bem...", "quero ficar com você... é o império do você(s) e do eu, fodam-se!!! São poucas bandas que discutem os temas atuais, com uma visão contemporânea... como sempre, bandas muito mais poser ou músicos bacanas falando de como "eu e você, nos amamos, nos traímos, discutimos, encontramos, fugimos..." Engraçado que nesse tema ninguém fala "enfio o pau na sua buceta, esfrego minha xoxota na sua xaninha, ou meu pau no cu do seu marido"!!!. Rock é pra conversar sobre a violência, a política, armas, o social, a ecologia, e os discursos enganadores de tudo isso. Rock é reponsabilidade social.


5 - Lucas Bertolucci: E o Rock no Brasil, Bandas das antigas estão ai de volta, será que é o ressurgimento do Rock nacional?
André Lissonger - Não existe um rock nacional! Não existe unidade... é muito heterogêneo hoje em dia, temos que mudar essa velha e antiquada versão dos anos 80 e 90. São Rock(S) no Brasil. Isso é coisa inventada por aquela revista antiga... não lembro o nome, ela ta muito ruim hoje em dia... e propagada por aquela emissora de televisão, me esqueço também... e daí propagada por quem não tem base crítica para a análise. As publicações e a mídia musical... salvo raras exceções... são uma merda!!! Não tem mais a porra da crítica... crítica parcial, como toda crítica... que coloca a cara, dá opinião embasada!!!
Agora... esse pessoal das "antiga" aí... entra em um outro bojo, outro contexto, zilhões de bandas, pirataria pesada, propagação da informação via multimídia e redes digitais, etc... são os "dinossauros"!!! Depende do caso, depende do "dinossauro" não é??? Tem gente até que se queima, pois fez algo legal no passado e vem agora fazer "shit for money"! Porra, é foda! Mas taí... cai dentro de um caldeirão sujo e grosseiro! Uma sopa com condimentos de influências do mundo todo: de toda a história da música, e de todo o Brasil. Acho que devíamos esquecer o (RE)surgimento do rock nacional e compreender o momento como o novo e constante surgimento de coisas com tendências diversas no Brasil... e claro que não necessariamente novas!

6 - Lucas Bertolucci: A Bahia é uma terra que se movimenta pelo Carnaval, o que falta para melhorar o Rock no estado?
André Lissonger - Excelente pergunta! Sobretudo para a Bahiatursa! Veja que a Bahia tem um fetiche! Fetiche de ser uma mistura de Disneylândia com Ilha da Fantasia, mas com outros temas (não identidades! Mas diferenças!). As dinâmicas urbanas, metropolitanas e regional da Bahia acontecem por diversos Carnavai(SSS): são diferentes, tem blocos afro, pagode, patricístico, marchinha, arrochas, forróSSS, tudo aí é o fundo musical desta Disney-Fantasie. Não digo isso como ataque, mas como constatação de que a esmagadora maioria da produção cultural dita "originalmente baiana", sobretudo musical, é cooptada ou pelo Aparelho do Estado ou por um processo de industrialização. Neste bojo difícil de explicar até o que é de fato Original acaba cooptado pelo Fetiche da Bahia. Agora... para melhorar os "rocks" penso que primeiro é necessário falar, berrar, gritar, inventar um outro Fetiche, incômodo, inquieto, desterritorializado, desfuncional, dentro ou ao lado deste Fetiche da Bahia, que aponte caminhos além do "poser" ou do "eu e você..."... mais uma vez... é necessário pensar em termos de políticas, sociedade, economias, ecologias, de uma forma diferente do que esta que é cooptada pelo Aparelho de Estado e pela industrialização dos entretenimentos. Se houver esta consciência, penso eu... o resto é conseqüência: palcos e som descentes, surgimento de festivais, mídia especializada, divulgação no Brasil e no Mundo, incluindo o respeito às bandas de rocks pelo próprio Aparelho de Estado e a Indústria do Entretenimento.... Então, um Fetiche da Bahia que "não é tão linda demais", e que "tem menos swingue do que sangue, pobreza, fome, miséria, mazelas, autoritarismos, e muita... mas muita mesmo... PIMENTA!". Os rocks na Bahia tem que contribuir com muita PIMENTA para este Fetiche da Bahia Disney-Fantasie!!! Fazer arder os olhos, a boca e, se precisar, o cu dos outros!!!


7 - Lucas Bertolucci: A modernidade está ai, onde o fãs podem encontrar informações sobre a Banda?
André Lissonger - A melhor informação sobre uma banda como a nossa está nos shows. PNG é uma banda que acontece em palco. O tipo de música que fazemos é um acontecimento que precisa do suporte palco, e não tanto uma propagação de valores, imagens, dígitos, brindes, camisetas, chaveiros, bonés, etc... tudo isso, mais uma vez, é o que concorre para a formação de inúmeras tendências de rock(s). São interessantes, pois há um "consenso" estratégico formado atualmente de que as bandas são mais do que sons... são imagens, clips, sites, etc. Todavia, uma das coisas mais fantásticas que ainda vivo hoje é o fato de poder cantar AO VIVO, aquele momento... na minha opinião não há nada mais UP TO DATE do que cantar ou tocar AO VIVO!!! É a VIDA de um músico na sua forma mais intensa, independente dos aparatos imagéticos ou tecnológicos. Vá aos shows!

8 - Lucas Bertolucci: Quais as considerações finais que a Banda tem a dizer?
André Lissonger - Primeiro, obrigado pelas perguntas... sempre bem vindas no sentido de esclarecer um pouco de nossas opiniões, e realizar um pouco do nosso diferente desejo de um Fetiche da Bahia e sobretudo do Brasil. Meu recado não é final nem inicial, mas é o de desejar aos rock(s) e aos "rockers" assumirem a tomada de assalto da sua própria função na contemporaneidade: quer sejam irônicos ou quer sejam sérios, assumir a nossa parcela de responsabilidade social.
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Um comentário:

Anônimo disse...

essa banda era muito boa

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